Em 2023, um advogado americano usou o ChatGPT para pesquisar precedentes jurídicos e citou seis casos no tribunal.
Nenhum deles existia.
O ChatGPT simplesmente inventou os processos — com nomes de juízes, datas, números de processo e tudo mais. O advogado não verificou. O juiz percebeu. O resultado foi uma multa, uma audiência disciplinar e uma história que correu o mundo.
Isso não é um caso isolado. É um alerta sobre algo que pouca gente entende de verdade: inteligência artificial não é sinônimo de informação correta.

Por que a IA “mente”?
A palavra “mentira” pressupõe intenção. A IA não mente — ela alucina.
O termo técnico é alucinação, e é exatamente o que parece: a IA produz informações com total confiança no tom, mas sem nenhuma base factual real. Datas erradas. Nomes trocados. Estudos que nunca foram publicados. Citações de pessoas que nunca disseram aquilo.
O problema não é malícia. É arquitetura.
Modelos de linguagem como o ChatGPT, o Claude e o Gemini foram treinados para prever a próxima palavra mais provável em uma sequência. Eles não consultam um banco de dados em tempo real. Eles não “sabem” coisas — eles calculam o que soa certo com base em padrões do texto de treinamento.
E quando não sabem a resposta? Em vez de dizer isso, frequentemente completam o espaço com algo plausível.
O que mais costuma ser inventado
Nem tudo tem o mesmo risco. Algumas categorias erram muito mais do que outras:
Dados numéricos e estatísticas
“Segundo um estudo da Universidade de Harvard, 73% das pessoas…” — esse tipo de frase soa autoritativa e é exatamente o tipo de coisa que a IA fabrica com frequência. O número, o estudo e às vezes até a universidade podem ser invenção.
Citações de pessoas reais
A IA sabe o estilo de falar de uma pessoa. Sabe os temas que ela aborda. Então produz citações que soam perfeitamente autênticas — e que a pessoa nunca disse.
Eventos recentes
Modelos têm uma data de corte de conhecimento. Tudo que aconteceu depois disso é território de improviso. Alguns modelos avisam isso claramente. Outros simplesmente inventam.
Referências bibliográficas
Artigos científicos, livros, documentos oficiais — a IA pode gerar referências completas, com autores, títulos, volumes e páginas, que simplesmente não existem.
Legislação e regulamentações
Leis mudam. E mesmo quando não mudaram, detalhes específicos de artigos e incisos são exatamente o tipo de coisa que a IA erra com confiança.
O que você pode fazer na prática
A resposta não é parar de usar IA. É usá-la com o mesmo critério que você usaria para qualquer outra fonte.
1. Trate a IA como um ponto de partida, não de chegada
Use para estruturar ideias, entender conceitos, rascunhar textos. Mas qualquer informação específica — número, nome, data, lei, estudo — precisa ser verificada antes de usar.
2. Pergunte pela fonte
Quando a IA citar um estudo ou estatística, pergunte diretamente: “Qual é a fonte exata disso? Autor, publicação, ano.” Se ela inventou, muitas vezes não consegue detalhar. Se conseguir, verifique mesmo assim.
3. Use ferramentas com acesso à web
O Perplexity, por exemplo, foi construído para buscar informações em tempo real e citar as fontes com links. Para pesquisas que precisam de precisão, é muito mais seguro do que modelos sem acesso à internet.
4. Desconfie do tom confiante
A IA raramente diz “não sei” espontaneamente. Quanto mais assertivo e detalhado o tom da resposta, mais atenção merece — paradoxalmente, é nesses momentos que o risco de alucinação é maior.
5. Assuntos críticos exigem verificação humana
Saúde, direito, finanças, segurança — qualquer área onde um erro tem consequências reais precisa passar por uma fonte humana especializada. A IA pode ajudar a entender o terreno, mas não substitui um médico, advogado ou contador.
Isso significa que a IA é inútil?
Não. Longe disso.
Para tarefas criativas, organização de ideias, geração de texto, resumo de conteúdo e automação de processos repetitivos, a IA é genuinamente transformadora. O problema não é a ferramenta — é a expectativa errada sobre o que ela faz.
Ela não é uma enciclopédia. Não é um mecanismo de busca. É um modelo de linguagem — incrivelmente sofisticado, mas com limitações reais que precisam ser entendidas por quem usa.
O advogado americano não foi vítima de uma IA maliciosa. Foi vítima de uma expectativa equivocada.
A habilidade que vai separar quem usa bem de quem se complica
Nos próximos anos, saber usar IA vai ser básico. O que vai diferenciar as pessoas é saber quando confiar, quando verificar e quando ignorar o que a IA diz.
Pensamento crítico não ficou menos importante com a chegada da IA. Ficou mais importante do que nunca.
Use as ferramentas. Aproveite o que elas têm de melhor. Mas mantenha o filtro ligado — porque a responsabilidade pelo que você faz com a informação ainda é, e sempre será, sua.
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